terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Dom Varão

Era um general que todos os anos ia vencer as guerras. Um dos anos chegou à época e ele estava doente. Ele falou: - é verdade, tanta filha mulher, não tenho nem um filho varão!
A pareceu a filha mais nova e disse: - Pronto pai, estou eu aqui pra te servir de filho varão nas guerras.
O pai respondeu: - Não vai dá certo filha. Você tem o cabelo muito longo, logo lhe reconhecerão.
- Eu vou a casa do barbeiro e mando botar no chão.
- Você tem os olhos muito rasos, logo lhe conhecerão.
- Eu boto ele ao longe, logo não me conhecerão.
- Você tem os seios muito altos, logo lhe conhecerão.
- Boto, ele na borracha, logo não me conhecerão.
- Você tem os passos curtos, logo lhe conhecerão.
- Eu boto eles a frente, logo não me conhecerão.
Chegou o dia da viagem. Ela se preparou. Pegou o mesmo cavalo que o pai viajava.
O pai disse: - Quando chegar no começo da cidade, a primeira casa é a que você se hospeda. A casa é de uma velha, o filho dela vence as guerras junto comigo.
Seguiu viagem a filha. Chegando na casa, bateu palma, o moço apareceu. Ela se identificou, sendo o filho do amigo dele.
Chegou o dia de ir ao quartel, se apresentaram. No outro dia começou o combate. Eles venceram a guerra. E ele sempre olhando pra o companheiro de guerra, desconfiado que aquele homem era mulher.
Acabado a guerra, eles voltaram para a casa da velha. O filho disse para a velha, sua mãe:
Minha mãe minha mãezinha
Minha mãe do meu coração
Os olhos de Dom Varão
É de mulher, de homem não
A mãe disse: - Oh, meu filho, se você está desconfiado, chame ele para um banquete de três dias, no período de três dias, se cochilar é mulher, se não cochilar é homem.
Obedecendo aos conselhos da mãe, o rapaz fez o convite e ela aceitou.
Na terceira noite ela cochilou. O Rapaz bateu no ombro dela: - Oh, amigo tá cochilando?
Ela respondeu: - Oh, amigo, a meia noite os animais todos cochilam, imagine nós que somos humanos.
Amanheceu o dia, voltaram para a casa da velha.
Em casa ele tornou a dizer:
Minha mãe minha mãezinha
Minha mãe do meu coração
Os olhos de Dom Varão
É de mulher, de homem não.
A mãe disse: - Convide ele pra ir dormir debaixo do arvoredo. Cada um em uma rede. Se a rede dele amanhecer com mais flores é mulher. Se não amanhecer é homem.
O arvoredo estava enfulorado. Umas horas da noite começaram a cair flores encima deles. Mas o cavalo dela veio e tirava todas as flores e botava na rede do companheiro. Quando o dia amanheceu, a rede dela tinha poucas flores e a rede do amigo quase cheia.
Foram pra casa. Depois do café, ele tornou a dizer:
Minha mãe minha mãezinha
Minha mãe do meu coração
Os olhos de Dom Varão
É de mulher, de homem não.
A mãe disse: - Oh, meu filho, se você tem tanta desconfiança, chame ele pra ir ao açude tomar banho. Chegando lá se ele se esbaldar e cair na água é homem. Se não cair, já sabe que é mulher.
Ele convidou: - amigo vamos tomar banho no açude pra você conhecer?
Ela respondeu: - vamos!
Chegou lá o filho da velha foi tirando a roupa e jogou-se no açude.
Antes que ele desconfiasse, ela botou a mão no bolso, pegou uma carta que ela mesmo tinha feito e disse: - Eita amigo, nesses três dias, agente em nossos recreios, eu esqueci de ler a carta. Meu pai está passando mal. Não vou mais tomar banho, vou-me embora.
Foram para casa, ela pegou o cavalo, celou e nem almoçou, se despediu e foi embora.
Ele falou:
Minha mãe minha mãezinha
Minha mãe do meu coração
Os olhos de Dom Varão
É de mulher, de homem não.
Falou isso com os olhos rasos de água.
A mãe disse:- Oh, meu filho pegue seu cavalo e acompanhe. Não deixe ele perceber que você vai seguindo. Chegando em casa se ele entrar pela porta da frente é homem. Se entrar pela porta de trás é mulher.
Quando ela chegou em casa, as irmãs estavam todas no terreiro. Começaram a gritar com muita alegria. Ela entrou pela porta de trás.
Ele vendo, deu a volta e entrou feliz pela porta da frente. Dentro de casa ele disse: - Bom dia meu general. Não lhe venho visitar, vim pedir a Dom Varão para com ela casar.
O general calmamente chamou a moça e acertaram o casamento.
(História pesquisada e registrada por Linete Matias, no livro, 'Um tanto que conto do Griô Zé Correia", contador de histórias de Piaçabuçu/Al.

Nenhum comentário:

Postar um comentário