Quando dá meia-noite tudo que é de mal - assombro aparece na rua, mas não é toda meia-noite, só as meias-noites de lua cheia.
Toda a noite, os mais velhos ascendem uma fogueira, sentam nas esteiras e começam a contar histórias, as histórias que a lua inspira, histórias de mula-sem-cabeça, lobisomem, histórias mal-assombradas...
As crianças escutam tudo, o medo vai deixando frio o lugar, os olhos percorrem a vegetação, os cantos escuros dos quintais das casas, o balanço dos barcos. O corpo treme, Maria, menina esperta, corre pro colo de sua mãe, ali ela se sente protegida, longe dos perigos. Os mais velhos riem e aos poucos vão entrando para casa.
Maria vai segurando na barra da saia de sua mãe. Ela abre a porta da casa, ascende o candeeiro e leva Maria pra a cama.
Maria deita, mas as sombras projetadas na parede do quarto feitas pelo candeeiro, faz lembrar as histórias que os mais velhos contaram...
Maria volta a tremer, pega o lençol e se enrola da cabeça aos pés...
É quase meia-noite, Maria continua toda enrola no lençol e com os olhos fechados, às vezes cria coragem e abre aos poucos, mas torna a fechar, o candeeiro está quase apagado, mas as sombras na parede são ainda maiores.
Falta pouco pra meia-noite, Maria ouve trotes de cavalo na rua, os trotes vão ficando cada vez altos, de repente um rinchar de cavalo, Maria cria coragem e brecha pelo ferrolho da porta. Maria menina medrosa, curiosa, nada vê, o barulho some, nem o rio tem movimento a essa hora, ele parece uma extensão do céu. Um céu com duas luas.
- Será que era a mula sem cabeça?
Os mais velhos contam que nas noites de lua cheia ela corre desembestada pelas ruas, o pai de Maria disse que já viu.
- É uma mula bonita, mas no lugar de cabeça ela tem uma fogueira no lugar.
Talvez seja a Ziza, ela namorou com o padre e nunca mais foi vista no povoado.Virou mula.
Outro barulho, agora vem da água, é o ziguezague do remo que Maria ouve. Ela torna a olhar pelo buraco da fechadura. É o pai de Maria, homem pescador, que chega da pescaria.
Maria levanta, pega o candeeiro e vai ao encontro do pai, ele, negro como a noite, está pálido e trêmulo, anda apressado.
- O que foi pai? Pergunta Maria.
- Nada, nada. Entre pra casa.
Maria volta pra cama, o pai também vai deitar.
- Que foi homem? Pergunta a Mãe.
- Mulher vi uma coisa que num era pra vê. Vi lá na ilha das cobras uma faísca bem pequeninha de fogo, pensei que era o velho Neca que resolveu dormir lá na casa do morador. O rio tava parado, parecia que tava dormindo, num tinha vento nenhum, resolvi pegar o remo e ir remando pra lá, pensei esperar o vento chegar preu armar minha vela e vir pra casa. Mas quanto mais eu remava, mas aquela faísca de fogo se distanciava de mim, ai eu gritei.
- Seu Neca! Seu Neca! A faísca começou a crescer, pensei tá vendo uma visagem, parei de remar e fiz o sinal da cruz. Quando eu torno olhar vejo duas bolas de fogo, elas se aproximava e se afastava, ficava pulando nas palhas de coqueiro, nos galhos da mangueira, de repente elas se juntam e virou um fogaréu tão grande que alumiava mais que o farol da boca da barra.
Peguei o remo e remei pro meio do rio, a bola de fogo parecia dançar e cada vez ia ficando bem grande, de repente dá um pipoco tão grande e desaparece. Era o fogo corredor mulé. Que dia estranho foi esse; nenhum peixe eu peguei na minha rede...
Maria, da cama, ouvia a história do pai, agora a chama do candeeiro causa medo, poderia o fogo corredor entrar na casa?
Ela volta a fechar os olhos. Já passa da meia-noite.
Maria, Maria, abre a porta que eu quero te visitar.
Maria já dormiu, Maria já levantou.
Maria, Maria, abre a porta que eu quero te visitar.
Maria já dormiu, Maria já levantou.
Maria está na porta da cozinha, olha fixamente pro bicho que está sentado no pé de laranjeira, ele meio homem , meio cachorro, observa Maria congelada de medo, na cozinha.
Maria, Maria, abre a porta que eu quero te visitar.
Maria já dormiu, Maria já levantou.
Maria, Maria, abre a porta que eu quero te visitar.
Maria já dormiu, Maria já levantou.
Maria cria coragem e fecha a porta, mas a porta parece ter diminuído ela fechar mais a porta passa direto pra rua. O bicho começa a levantar e se aproximar.
Maria, Maria, abre a porta que eu quero te visitar.
Maria já dormiu, Maria já levantou.
Maria, Maria, abre a porta que eu quero te visitar.
Maria já dormiu, Maria já levantou.
Maria tenta fechar a porta, mas ela não fecha. Maria vai se afastando da porta. Uma mão peluda de umas longas vai abrindo a porta, Maria corre bate a porta e o ferrolho de madeira trava, finalmente a porta é fechada. Maria corre para cama, ouve passos no oitão da casa e a voz aos poucos vai se distanciando...
Maria, Maria, abre a porta que eu quero te visitar.
Maria já dormiu, Maria já levantou.
Maria, Maria, abre a porta que eu quero te visitar.
Maria já dormiu, Maria já levantou.
Maria treme na cama. Agora ela reza: “Santo anjo do senhor meu zeloso guardador...”
O coração que tava acelerado, vai desacelerando...
Passos são ouvidos no oitão da casa, uma voz fechada, murmurada, acompanha os passos... O coração de Maria volta a acelerar... A voz e os passos circulam a casa.
Cada vez mais os passos e a voz ficam mais altos, parece tá circulando o quarto, depois a cama... Maria com os olhos fechado e coração acelerado se encolhe na cama. Some os passos e a voz, mas a respiração ofegante continua no pé da cama.
Uma velha, muito velha, de cachimbo na boca e agulha na mão, observa Maria. Maria, tremendo puxa o lençol, deixando o calcanhar do lado de fora, a velha, olha pro calcanhar de Maria e pra agulha, lentamente ele enfia a agulha no calcanhar de Maria, Maria sente uma dormência no pé todo. De repente uma voz:
- Maria, Maria, levanta, a boca da barra já avista, é hora de correr os covos com seu pai!
A mãe segura no pé dormente de Maria, ela aliviada, pula da cama, abraça a mãe e sai saltando num pé só, lava o rosto e corre pra canoa do pai.
Linete Matias
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