Bom era quando éramos destemidos, quando um ajuda o outro. Você lembra?
Eu, você... a lua só doava o brilho para que nossa noite fosse única. Minha inocência, eu tão pequena no leito de alguém tão grande!
Lembra a gente pescando? Eu passava com o barco e você jogava o peixe para mim. Era maravilhoso te mergulhar, ainda é... mas eu tinha medo, diziam que existiam meros em suas veias, nego d’água e até ouvi dizer que o fogo corredor passeava em seu corpo sem o queimar, mas mesmo assim eu te mergulhava, o prazer era maior que o medo.
Você lembra das tapagens? Era uma trabalheira atravessar as máquinas para a ilha, você ajudava, e quando iniciava a arada eu ficava atenta, o trator passava e em alguns minutos seu sangue começava a borbulhar e com as borbulhas vinham pra beirada camarão, cará, piaba, lambia, imagina, até piranha. Era uma festa só, depois era só sentar, pegar a farinha e comer. Eu e você.
Eu lembro quando você foi me visitar. Você chegou em minha porta, eu fiquei muito assustada, tentei com meu pensamento afastar minha casa pra longe de você. Me perdoa! Eu não percebi o quanto era importante pra você. Depois disso ficamos distantes por algum tempo, mas você conseguiu me atrair novamente, o seu cardume de piaba era muito lindo, você ofereceu a mim, como um amante oferece rosas a sua amada.
Eu lembro que você foi me visitar outras vezes. Eu gostava de fazer bonecos de barro no muro do riacho da viúva, fiquei distante, você sentiu minha falta e alargou tanto seu corpo que cobriu o muro e jogou todos os meus bonecos fora, fiquei triste, você percebeu e me ofereceu outro cardume de peixe, me conquistou novamente.
Rimos, brincamos, caímos, caímos várias vezes. Mergulhamos um no outro. Era tão bom! Ainda é.
Sem que eu percebesse você foi diminuindo, só agora percebo que aparecem manchas em seu corpo e que você não consegue chegar a mim. Eu me sinto responsável por ter abandonado você.
Você ta chorando? O quê? Água?
Nunca pensei que sentiria sede!
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